Descreverei a minha experiência com esse livro dividindo em algumas partes.
A começar pela premissa: A Vegetariana não tem nada a ver com a escolha de mudança alimentícia em si, somos apresentados à Yeonghye, uma mulher comum que está passando pelas fases da esquizofrenia e da depressão.
O ponto principal do livro é mostrar como pessoas com determinadas ondições são desumanizadas e resumidas ao seu transtorno. O livro é narrado pela perspectiva de três pessoas: o marido da Yeonghye na parte I (Jeong), o cunhado na parte II e a irmã mais velha na parte III (Inhye), em nenhum momento temos o relato da vítima, numa forma de mostrar que ela já não tem mais domínio sobre sua própria vida.
O livro explicita a realidade da sociedade sul-coreana, que sempre estará contra a mulher e com o objetivo de manter o conservadorismo e o tradicionalismo, resumindo a mulher à posse, objetificação e submissão.
Parte I: O abandono. Trazendo para a realidade do Brasil, o tema do ENEM 2023 foi "Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil". Na esmagadora maioria dos casos, o trabalho de cuidado é exercido pela mulher; sempre que seus filhos, pais ou parceiros adoecem, a mulher se coloca em segundo plano e se submete a cuidar daquele indivíduo. Ao contrário, na mais confortável possibilidade, o homem abandona e terceiriza aquela que ele prometeu amar e cuidar na saúde e na doença. Yeonghye está claramente doente e tendo diversos episódios de surto, quando na primeira grande explosão, seu marido Jeong a deixa para os cuidados da família por não suportar cuidar dela.
Parte II: Os busos. Depois de ser abandonada, Yeonghye recebe um novo trauma: o abuso realizado por seu cunhado. Aproveitando-se de uma situação de vulnerabilidade, o cunhado instiga e incentiva Yeonghye a fazer o que ela quer, aproveitando-se de um delírio para satisfazer seus prazeres doentios. Além de trair a própria esposa, o cunhado comete um ato de violência contra uma vulnerável, que é socorrida pela única pessoa que escolheu ficar, sua irmã. O covarde do cunhado tenta até se jogar do prédio para não ser detido, porém isso não dá certo.
Parte III: A negligência. Só no ato 3 que entendemos o que causou o surto de Yeonghye, nada mais que uma infância repleta de violência ocasionada pelo pai. Após ser abandonada pelo marido, que foi detido, Inhye se vê sozinha para criar o filho, cuidar do pais enfermos e da irmã se decompondo viva. Mais uma vez, o trabalho de cuidado recai para a mulher, que poderia escolher abandonar, mas insistiu até o último segundo pela irmã, também como uma forma de exprimir que se sente culpada pela omissão de todas as violências que ela e a irmã sofreram dentro de casa. Com uma mãe exausta, um pai violento e um irmão problemático, as duas mulheres da casa cresceram servindo de saco de pancadas, a mais velha (Inhye) seguindo as tradições do que a sociedade sul-coreana espera de uma mulher, a mais nova (Yeonghye) tentando se erguer e sendo rebaixada.
Inhye reconhece que se omitiu durante muito tempo às violências que sofria, como também, precisou exercer seu instinto materno cedo demais para defender a irmã como uma mãe precisa fazer. Os traumas acumulados resultaram numa mulher perturbada e encontrando na morte a paz para sua vida infeliz.
É um livro difícil de ler, cheio de camadas e expondo um pensamento masculino nos dois primeiros capítulos que nos faz até cogitar se é realmente uma mulher a escrevê-lo. Não é um livro que qualquer um possa opinar, pois acredito que atualmente, as pessoas não tenham pensamento crítico e aprofundado para entender que é sim uma longa história sem um final feliz, já que é uma realidade extremamente atual não apenas das mulheres sul-coreanas como também, do mundo inteiro.
Não espere uma leitura simples; temos um homem indiferente, um predador sexual e uma mulher exausta narrando suas relações com a protagonista, que só temos contato por pensamentos no primeiro ato.
O terror se torna mais cruel quando ele trata sobre a realidade e acho que é por isso que dói tanto um final aberto que claramente nos diz que não houve felicidade na loucura.