Acho que provavelmente nunca lerei um material tão distante de mim no tempo quanto este, a Epopeia de Gilgamesh, considerada a mais antiga narrativa humana escrita, remontando há 3.300 anos, contando os feitos mitológicos de alguém que reinou há 4.700 anos.
Estruturalmente, o texto é dividido em 12 tabuinhas, contendo vários pequenos poemas com trechos da narrativa. Os textos foram reunidos de placas de argila com escrita cuneiforme preservadas ainda hoje, verdadeiras relíquias arqueológicas, mas há muitas lacunas de palavras e trechos nele. A repetição de trechos em anáfora cria um efeito de progressão muito sofisticado e alguns versos são magnificamente belos e contundentes. Impossível não querer ler em voz alta, emulando a tradição oral de se contar histórias e imaginar toda a grandiosidade da epopeia repercutindo nos ouvidos de uma plateia.
Sobre a narrativa em si, eu particularmente gostei muito de como Enkidu e Gilgamesh se tornam grandes amigos (yaoi purinho) após uma certa animosidade inicial. São muito divertidos os trechos em que eles saem à caça de Humbaba, o guardião monstruoso da Floresta de Cedros e de como cooperam juntos para derrotá-lo despertando a ira dos Deuses depois. Também é muito tocante e impactante a forma como Gilgamesh se abate pela morte do amigo. Há sentimentos universais que nos acompanham desde que nos entendemos como humanos e obviamente eles já estariam presentes mesmo nas nossas mais antigas obras. É doloroso e familiar ver como o luto leva Gil a beira da loucura e da agonia.
Também é curioso perceber o quanto se pode extrair de uma cultura e de um povo que não existem mais com a ficção que eles nos deixaram. Dá pra perceber o que cultuavam moral e eticamente, o que pensavam sobre aspectos dos deuses, da sociedade e temas universais, como o amor e a morte.
Findo a leitura muito satisfeito e encantado com a narrativa. Esta edição, apesar de ser em capa dura, não traz muitos conteúdos extras, que poderiam enriquecer a experiencia de leitura. Um dia, pretendo ler a versão comentada da obra pelo Jacyntho Lins Brandão, cujo título é o verso que abre a epopeia, "Gilgamesh: aquele que o abismo viu" e aí sim me aprofundar melhor nos detalhes e na contextualização do texto que com certeza me escaparam nesta leitura inicial.